Sabedoria Umbandista

Texto escrito pelo nosso irmão Sid Soares

A parte boa de ser educado por Preto Velho ou Preta Velha é que a gente aprende a ter uma visão (um pouco) mais abrangente de tudo. Aprende a mergulhar nas situações sem nos deter na primeira impressão das coisas, ou que as pessoas nos dão.

A parte ruim é que a elegância adquirida pela convivência com eles nos faz andar na contramão da maldade, caminhando em silêncio com Deus. Que aos olhos mais verdes pode parecer covardia ou aquiescência com o mal. É apenas sossego.

A parte verdadeiramente importante é que na travessia por qualquer caminho que se escolha andar, com fé, respeito e verdade, você nunca vai estar sozinho.

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Amar não é negócio, amar é entrega autruísta

Um belo texto para começarmos a década de 20 do século XXI. A intelectual norte-americana, bell hooks nós faz refletir sobre a necessidade de amar não fragmentária. Sem mais comentário, como diz a nossa dirigente Helenice de Carvalho, “Vamos amar o amor” e leiam bell hooks.

Nesta sociedade, não há um discurso poderoso sobre o amor emergindo nem dos radicais progressistas nem da esquerda. A ausência de um foco continuado sobre o amor em círculos progressistas surge de uma falha coletiva em reconhecer as necessidades do espírito e de uma ênfase sobre determinada nas preocupações materiais. Sem amor, nossos esforços para libertar a nós mesmas/os e nossa comunidade mundial da opressão e exploração estão condenados. Enquanto nos recusarmos a abordar plenamente o lugar do amor nas lutas por libertação, não seremos capazes de criar uma cultura de conversão na qual haja um coletivo afastando-se de uma ética de dominação.

Sem uma ética do amor moldando a direção de nossa visão política e nossas aspirações radicais, muitas vezes somos seduzidas/os, de uma maneira ou de outra, para dentro de sistemas de dominação — imperialismo, sexismo, racismo, classismo. Sempre me intrigou que mulheres e homens que passam uma vida trabalhando para resistir e se opor a uma forma de dominação possam apoiar sistematicamente outras. Fiquei intrigada com poderosos líderes negros visionários que podem falar e agir apaixonadamente em resistência à dominação racial e aceitar e abraçar a dominação sexista das mulheres; com feministas brancas que trabalham diariamente para erradicar o sexismo, mas que têm grandes pontos cegos quando se trata de reconhecer e resistir ao racismo e à dominação por parte da supremacia branca do planeta. Examinando criticamente esses pontos cegos, concluo que muitas/os de nós estão motivadas/os a mover-se contra a dominação unicamente quando sentimos nossos interesses próprios diretamente ameaçados. Muitas vezes, então, o anseio não é para uma transformação coletiva de sociedade, para um fim da política de dominações; mas simplesmente para o fim do que sentimos que nos machuca. É por isso que precisamos desesperadamente de uma ética do amor para intervir em nosso desejo autocentrado por mudança. Fundamentalmente, se estamos comprometidas/os apenas com a melhoria daquela política de dominação que sentimos conduzir diretamente para nossa exploração ou opressão individual, não apenas permanecemos ligados ao status quo, mas agimos em cumplicidade com ele, nutrindo e conservando esses mesmos sistemas de dominação. Até todas/os nós sermos capazes de aceitar a natureza interconectada e interdependente dos sistemas de dominação e reconhecermos as formas específicas de manutenção de cada sistema, continuaremos a agir de forma a minar nossa busca individual por liberdade e nossa luta por libertação coletiva.

A capacidade de reconhecer pontos cegos só pode surgir à medida em que expandimos nossa preocupação sobre a política de dominação e nossa capacidade de nos preocuparmos com a opressão e exploração de outrem. Uma ética de amor torna possível essa expansão. O movimento de direitos civis transformaram a sociedade nos Estados Unidos porque era fundamentalmente enraizada em uma ética do amor. Nenhum líder enfatizou mais essa ética que Martin Luther King Jr. Ele tinha a percepção profética de reconhecer que uma revolução construída sobre qualquer outra fundação falharia. Repetidas vezes, Luther King afirmou que ele “havia decidido amar”, porque acreditava profundamente que, se estamos “buscando o bem supremo”, nós “o encontramos por meio do amor”, porque esta é “a chave que abre a porta para o significado da realidade última”. E o ponto de estar em contato com uma realidade transcendente é que lutamos por justiça, ao mesmo tempo percebendo que somos sempre mais do que nossa raça, classe ou sexo. Quando olho para trás, para o movimento pelos direitos civis que era, em muitos aspectos, limitado porque era um esforço reformista, vejo que tinha o poder de movimentar coletivos de pessoas para atuarem no interesse da justiça racial — e porque estava profundamente enraizado em uma ética do amor.

O movimento Black Power dos anos sessenta se afastou dessa ética do amor. A ênfase agora estava mais no poder. E não é de surpreender que o sexismo que sempre intensificou a luta de libertação negra, que uma abordagem misógina em relação às mulheres se tornassem centrais como a equação entre liberdade e a masculinidade patriarcal entre dirigentes políticos negros/as, quase todos homens. Na verdade, a nova militância do poder negro masculinista equiparou amor com fraqueza, anunciando que a expressão essencial da liberdade seria a vontade de coagir, fazer violência, aterrorizar; de fato utilizar as armas de dominação. Esta era a mais crua encarnação do credo corajoso de Malcolm X “por qualquer meio necessário”.

Como um lado positivo, o movimento Black Power deslocou o foco da luta pela libertação negra da reforma para a revolução. Este foi um importante desenvolvimento político, trazendo consigo uma perspectiva global anti-imperialista mais forte. No entanto, viéses sexistas machistas na liderança levaram à supressão da ética do amor. Assim, o progresso foi feito mesmo com algo valioso sendo perdido. Enquanto Luther King tinha se concentrado em amar os inimigos, Malcolm chamou-nos de volta a nós mesmos, reconhecendo que cuidar da negritude era nossa responsabilidade central. Embora Luther King tenha frisado a importância do amor próprio negro, ele falou mais sobre amar nossos inimigos. Em última análise, nem ele nem Malcolm viveram o suficiente para integrar plenamente a ética do amor numa visão de descolonização que fornecesse um plano para a erradicação do auto-ódio negro.

Os povos negros que entraram no domínio racialmente integrado da vida americana por causa do sucesso dos direitos civis e do movimento Black Power, de repente descobrimos que lutávamos com uma intensificação do racismo internalizado. As mortes desses importantes líderes (bem como as de líderes brancos liberais que eram aliados importantes na luta pela igualdade racial) trouxeram intensos sentimentos de desesperança, impotência e desespero. Feridas/os naquele espaço onde conheceríamos o amor, as/os negras/os coletivamente experimentaram uma dor viva e angústia sobre o nosso futuro. A ausência de espaços públicos onde essa dor pudesse ser articulada, expressa, compartilhada, significou que ela foi mantida infiltrada, suprimindo a possibilidade de que esse sofrimento coletivo fosse reconciliado em comunidade, até mesmo como maneira de ir além de tal sofrimento e continuar vislumbrando a luta de resistência. Sentindo como se “o mundo tivesse realmente chegado ao fim”, no sentido de que uma esperança de que a justiça racial se tornasse a norma, havia morrido, um risco de morte desesperador se apoderou da vida negra. Nunca saberemos até que ponto o foco do machismo negro sobre a dureza e a tenacidade serviu como barreira, continuamente impedindo o reconhecimento público do enorme sofrimento e dor na vida negra. Em World as Lover, World as Self Joanna Macy, no capítulo “Despair Work”, enfatiza que

“a recusa em sentir tem um preço alto. Não só há um empobrecimento da nossa vida emocional e sensorial… Mas esse entorpecimento psíquico também impede nossa capacidade de processar e responder às informações. A energia gasta em empurrar para baixo o desespero é desviada de usos mais criativos, esgotando a resiliência e a imaginação necessárias para novas visões e estratégias”.

Se as pessoas negras têm avançado em nossa luta por libertação, temos de confrontar o legado desse sofrimento irreconciliado, pois este tem sido um terreno fértil para o desespero niilista. Devemos voltar coletivamente para uma visão política radical da mudança, enraizada em uma ética do amor e buscar, mais uma vez, transformar coletivos de pessoas, negras e não negras.

Uma cultura de dominação é anti-amor. Exige violência para se sustentar. Escolher o amor é ir contra os valores predominantes dessa cultura. Muitas pessoas sentem-se incapazes de amar a si mesmas ou a outras porque não sabem o que é o amor. Músicas contemporâneas como “What’s Love Got To Do With It” de Tina Turner defendem um sistema de trocas em torno do desejo, refletindo a economia do capitalismo: a ideia de que o amor é importante é zombada. Em seu ensaio “Love and Need: Is Love a Package or a Message?” Thomas Merton argumenta que somos ensinadas/os, dentro da estrutura de consumo capitalista competitivo, a ver o amor como um negócio: “Esse conceito de amor assume que a maquinaria de compra e venda de necessidades é o que faz tudo acontecer. Considera a vida como um mercado e o amor como uma variação na livre iniciativa”. Embora muitas pessoas reconheçam e critiquem a comercialização do amor, elas não veem alternativa. Não sabendo amar, ou mesmo o que é o amor, muitas pessoas se sentem emocionalmente perdidas; outras buscam definições, formas de sustentar uma ética do amor em uma cultura que nega valores humanos e valorizam o material.

As vendas de livros que se concentram na recuperação, livros que procuram maneiras de melhorar a autoestima, amor-próprio e nossa capacidade de ser íntima/o nos relacionamentos, demonstram que há consciência pública de uma falta na vida da maioria das pessoas. O livro de autoajuda de M. Scott Peck The Road Less Traveled é enormemente popular porque aborda essa falta.

Peck oferece uma definição operacional para o amor que é útil para aquelas/es de nós que gostariam de fazer de uma ética do amor o núcleo de toda interação humana. Ele define o amor como “a vontade de estender-se para o propósito de nutrir o crescimento espiritual de si mesmo ou de outrem”. Comentando sobre as atitudes culturais predominantes sobre o amor, Peck escreve:

“Todo mundo na nossa cultura deseja, até certo ponto, ser amoroso, mas muitas/os não são de fato amorosas/os. Concluo, portanto, que o desejo de amar não é, em si mesmo, amor. O amor é o que o amor faz. O amor é um ato de vontade — ou seja, uma intenção e uma ação. Também implica uma escolha. Nós não temos que amar. Escolhemos amar”.

Suas palavras ecoam a declaração de Martin Luther King: “Eu decidi amar”, que também enfatiza a escolha. Luther King acreditava que o amor é, “em última análise, a única resposta” para os problemas enfrentados por esta nação e por todo o planeta. Compartilho essa crença e a convicção de que é na escolha do amor, e começando com o amor como fundamento ético para a política, que estamos mais bem posicionadas/os para transformar a sociedade de forma a melhorar o bem coletivo.

É realmente surpreendente que Luther King tivesse a coragem de falar, tanto quanto ele fez, sobre o poder transformador do amor, em uma cultura na qual esse discurso é muitas vezes visto como meramente sentimental. Nos círculos políticos progressistas, falar de amor é garantir que alguém seja dispensado ou considerado ingênuo. Mas, fora desses círculos, há muitas pessoas que reconhecem abertamente que são consumidas por sentimentos de auto-ódio, que se sentem sem valor, querendo uma saída. Muitas vezes, elas estão presas demais por um desespero paralisante para serem capazes de se engajar efetivamente em qualquer movimento de mudança social. No entanto, se líderes de tais movimentos se recusam a enfrentar a angústia e a dor de suas vidas, nunca estarão motivadas/os a considerar a recuperação pessoal e política. Qualquer movimento político que possa atender eficazmente a estas necessidades do espírito, no contexto da luta pela libertação, terá sucesso.

No passado, a maioria das pessoas aprendia e cuidava das necessidades do espírito no contexto da experiência religiosa. A institucionalização e comercialização da igreja têm minado o poder da comunidade religiosa em transformar almas, intervir politicamente. Comentando o sentido coletivo da perda espiritual na sociedade moderna, Cornel West afirma:

“Há um perverso empobrecimento do espírito na sociedade estadunidense e, especialmente, entre negros. Historicamente, houve forças e tradições culturais, como a igreja, que mantinha a frieza e a mesquinharia à distância. No entanto, o empobrecimento do espírito significa que esta frieza e mesquinhez se tornam cada vez mais e mais infiltradas. A igreja manteve estas forças à distância promovendo um sentido do respeito para com outrem, um sentimento de solidariedade, um senso de propósito e valor que encaminharia a batalha contra o mal”.

As comunidades políticas que sustentam a vida podem proporcionar um espaço semelhante para a renovação do espírito. Isso só pode acontecer se abordarmos as necessidades do espírito na teoria e na prática política progressistas.

Muitas vezes, quando Cornel West e eu falamos com grandes grupos de pessoas negras sobre o empobrecimento do espírito na vida negra, a falta de amor, a partilha de que podemos coletivamente recuperar-nos no amor, a resposta é esmagadora. As pessoas querem saber como começar a prática de amar. Para mim, é onde a educação para a consciência crítica deve entrar. Quando eu olho para a minha vida, procurando por um plano que me ajudou no processo de descolonização, de auto recuperação pessoal e política, sei que foi aprendendo a verdade sobre como os sistemas de dominação operam que ajudou, aprendendo a olhar para dentro e para fora, com um olhar crítico. A consciência é central para o processo de amor como a prática da liberdade. Sempre que aquelas/es de nós que são membros de grupos oprimidos se atrevem a interrogar criticamente nossas posições, as identidades e lealdades que informam como vivemos nossas vidas, iniciamos o processo de descolonização. Se descobrimos em nós mesmas/os auto-ódio, baixa autoestima ou um pensamento branco supremacista interiorizado e os enfrentamos, podemos começar a curar. Reconhecer a verdade de nossa realidade, tanto individual como coletiva, é uma etapa necessária para o crescimento pessoal e político. Este é geralmente o estágio mais doloroso no processo de aprender a amar — o que muitas/os de nós procuram evitar. Novamente, uma vez que escolhemos o amor, instintivamente possuímos os recursos interiores para enfrentar essa dor. Movendo inteiramente a dor para o outro lado, encontramos a alegria, a liberdade de espírito trazidas por uma ética do amor.

Escolhendo o amor, também escolhemos viver em comunidade, e isso significa que não temos que mudar apenas por nós mesmas/os. Podemos contar com a afirmação crítica e diálogo com companheiras/os andando por um caminho semelhante. O teólogo afro-americano Howard Thurman acreditava que aprendemos melhor o amor como a prática da liberdade no contexto da comunidade. Comentando este aspecto de seu trabalho no ensaio “Spirituality out on The Deep”, Luther Smith nos lembra que Thurman sentiu que os Estados Unidos foram dados a diversos grupos de pessoas pela força da vida universal, como um local para a construção da comunidade. Parafraseando Thurman, ele escreve: “A verdade se torna verdadeira na comunidade. A ordem social anseia por um centro (isto é, espírito, alma) que lhe conferira identidade, poder e propósito. Os Estados Unidos, e todas as entidades culturais, estão em busca de uma alma”. Trabalhando dentro da comunidade, seja compartilhando um projeto com outra pessoa, ou com um grupo maior, somos capazes experimentar alegria na luta. Essa alegria precisa ser documentada. Porque se nos concentrarmos apenas na dor, as dificuldades, que certamente são reais em qualquer processo de transformação, somente mostraremos uma imagem parcial.

A ética do amor enfatiza a importância do serviço para outrem. Dentro do sistema de valores dos Estados Unidos, qualquer tarefa ou trabalho relacionado com o “serviço” é desvalorizada. O serviço fortalece nossa capacidade de conhecer a compaixão e aprofunda nossa percepção. Ao servir a outrem, não posso vê-las/os como um objeto: devo ver sua subjetividade. Compartilhando o ensino dos guerreiros Shambala, a budista Joanna Macy escreve que precisamos de armas de compaixão e discernimento.

“Você precisa ter compaixão porque ela lhe dá o combustível, o poder, a paixão para mover. Quando você se abre para a dor do mundo, você se move, você age. Mas essa arma não é suficiente. Ela pode te queimar; então você precisa de outrem — você precisa entender a radical interdependência de todos os fenômenos. Com essa sabedoria, você percebe que não é uma batalha entre os bons e maus, mas que a linha entre o bem e o mal passa pela paisagem de cada coração humano. Com a percepção de nossa profunda inter-relação, você sabe que as ações empreendidas com intenção pura têm repercussões em toda a rede da vida, além do que você pode mensurar ou discernir”.

Macy ensina que a compaixão e a percepção podem “sustentar-nos como agentes de mudança saudável”, pois eles são “dons que nós requeremos agora na cura de nosso mundo”. Em parte, aprendemos a amar doando serviço. Esta é, novamente, uma dimensão do que Peck significa quando fala de estender-se para outrem.

O movimento dos direitos civis tinha o poder de transformar a sociedade porque indivíduos que lutavam sozinhos e em comunidade por liberdade e justiça procuravam essas dádivas para todos, não apenas para as/os que sofrem e oprimidas/os. Líderes negras/os visionárias/os, como Septima Clark, Fannie Lou Hamer, Martin Luther King Jr. e Howard Thurman advertiram contra o isolacionismo. Incentivaram as pessoas negras a olharem para além de nossas próprias circunstâncias e assumirmos responsabilidade pelo planeta. Este apelo à comunhão com o mundo além do eu, da tribo, da raça, da nação, era um constante convite para expansão pessoal e crescimento. Quando massas de pessoas negras começam a pensar apenas em termos de “nós e eles”, internalizando o sistema de valores do patriarcado capitalista da supremacia branca, pontos cegos são desenvolvidos, a capacidade de empatia necessária para a construção da comunidade fora diminuída. Para curar nosso corpo político ferido, devemos reafirmar nosso compromisso com uma visão do que Luther King mencionou no ensaio “Facing the Challenge of a New Age” como um genuíno compromisso com “liberdade e justiça para todas/os”. Meu coração se eleva quando leio o ensaio de Luther King; lembro-me de onde nos leva a verdadeira libertação. Isso leva além da resistência à transformação. Luther King diz-nos que “o fim é a reconciliação, a fim é a redenção, o fim é a criação da comunidade amada”. Ao escolher amar, começamos a nos mover contra a dominação, contra a opressão. No momento em que escolhemos amar, começamos a nos mover para a liberdade, a agir de maneiras que libertem a nós mesmas/os e a outrem. Essa ação é o testemunho do amor como a prática da liberdade.


hooks, bell. Love as the practice of freedom. In: Outlaw Culture. Resisting Representations. Nova Iorque: Routledge, 2006, p. 243–250. Tradução para uso didático por Wanderson Flor do Nascimento.

Ame o Amor

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Os meus pais fizeram da Umbanda uma extensão das suas vidas, meu pai o primeiro dirigente da Tenda e minha mãe sua continuação acreditam fortemente no amor incondicional. O amor que transborda e não faz nenhum tipo de restrição. Levam como lema de vida, o próprio lema da Umbanda: a manifestação do espírito para a prática da caridade. Nós, seus filhos canais e espirituais, incorporamos o amor e a caridade, essas duas energias estão dentro de nós, embora sejamos ainda imperfeitos, mas vemos nos outros seres, potências divinas. Minha mãe criou para si e para todos nós um lema “AME O AMOR”, papai também já o tinha adotado antes de partir para Aruanda. Por isso, nesse final de ano, nossa mensagem será sessa:

AME O AMOR

BOAS FESTAS

FELIZ 2020

Saravá!

Mabaça – Os gêmeos em nós

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Texto de Sid Soares

Esse é o mês das crianças dentro da Umbanda, se no 13 de maio sobe aos céus do país uma energia de liberdade e gratidão, hoje os terreiros e tendas são fontes de riso, alegria, da inocência e pureza que nos religa a Deus. São Cosme e São Damião nas imagens mais conhecidas e os santos Crispim e Crispiniano que são reverenciados no mundo todo e aqui mais ainda, onde há um santo para cada dor, para cada prece encerrando esse ciclo no dia 25 de Outubro. Não por acaso a Umbanda é sustentada por um triangulo de forças divinas que representam as três fases da vida humana, assim temos o Preto Velho, o Caboclo e por fim o Erê, e ser envolvido por este triangulo é ter a certeza de precisamos seja qual for a fase da vida termos a humildade e sabedoria, a vitalidade e firmeza com a serenidade, e a esperança e a fé.Os santos gêmeos católicos São Cosme e São Damião nasceram na Arábia, eram filhos de Teodata e curavam sem cobrar por isso através de remédios e de orações que faziam aos desenganados. Por esse motivo eram chamados de anárgiros (“ana”desprovido de ou que não aceita e “argiros” prata ou dinheiro). Tinham mais cinco irmãos que no Brasil são representados por Doum, Alabá, Crispim, Crispiniano e Talabi.

O culto aos santos veio para o Brasil trazido pelos portugueses que aqui se misturou ao culto africano aos gêmeos Ibeji na nação Ketu ou Nvuji na nação Angola ( que na Umbanda recebe o nome de Ibejada, linha que compreende espíritos que trabalham na faixa vibratória desse orixá) e se misturou ainda ao deuses gêmeos indígenas, Tamendonare e Aricoute que deram segundo a mitologia, origem aos povos Tupinambás e Temininós.

Nesse rearranjo brasileiro o próprio caruru feito para ofertar aos dois-dois tem origem indígena no alimento chamado caá-riru ou “erva de comer”, que era feito com bredo e que depois ganhou o quiabo pelos africanos.

Com essa mistura toda de crenças o que mais importa é o companheirismo e a alegria que anda tão escassa, que devem ser gêmeos em nós, assim como a fé e a esperança. Erê é uma palavra que significa brincar, e define o caminho entre nós e Orixá, o consciente e inconsciente, e na nossa jornada tão cheia de coisas, de mágoas e descaminhos vamos nos perdendo da brincadeira, dos companheiros, das amizades, dos irmãos.

A gente precisa se reencontrar ou aprender com o nosso gêmeo, que é aquele “eu” que sabia que por mais difícil que fosse, ia passar, que uma gargalhada resolve muita coisa, que uma brincadeira de roda pode curar, e que uma prece feita com esperança e inocência sempre é atendida! Tenha o nome que tiver, o que não dá pra desaprender é o bom e velho levantar depois de um tombo ou um joelho ralado, após uma topada numa pedra, ou o tão esquecido “ficar de bem” por que criança de verdade come doce, não mágoa!

“Filho de fé estava doente
Filho de fé estava chorando
Filho de fé viu Ibejada
Filho de fé já está cantando!”

TODAS AS GIRAS SUSPENSAS

Amigos e frequentadores da Tenda, cumprimos a determinação do governo e do plano astral. Ficaremos em nossas casas rezando e cantando nossos pontos.

“A nossa fé é a nossa cura, para Deus nada é impossível” Estrela do Oriente e Natanael a frente sempre. 

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Sessão de Mesa = Descarrego

Como a nossa próxima sessão do dia 4 de agosto será uma sessão de Mesa, gostaria de explicar como ela acontece em nossa casa.  

Mesa de Oxalá

Por Sylvia Arcuri

A sessão de Mesa acontece ao redor de uma mesa com uma toalha branca estendida, por isso muitos denominarem e associarem ao nome a cor branca. A cor também está ligada a Oxalá, o Orixá maior dentro da Umbanda que, dentro do sincretismo, refere-se a Jesus Cristo. Além disso, a cor branca, segundo a cromoterapia, indica claridade, pureza e iluminação; representa a inocência, a verdade e a integridade do mundo; simboliza o caminho e o esforço em direção à perfeição. É indicada para cura em geral, purificação e abertura à luz. Por esse motivo o nome: “mesa branca”. 

Antes de começar os trabalhos mediúnicos, em volta da mesa, e depois de termos feito a abertura da sessão, evocamos os caboclos que participarão dos trabalhos realizados na mesa em si. No nosso caso, a mesa possui oito espaços para que os médiuns incorporados,  ou não, ocupem e ficam quatro espaços vazios, um em cada ponta da mesa para que  o consulente sente-se. O dirigente da mesa (que muitas vezes é uma pessoa diferente do dirigente da casa) faz uma preleção, geralmente lê uma página relacionada com as questões espirituais, pede-se permissão para começar a sessão ao espírito que, junto com o dirigente da casa irá comandar os trabalhos, no nosso caso, a permissão é solicitada a Bezerra de Menezes, um espírito conhecido dentro do Kardecismo. 

Pode-se dizer que a sessão de Mesa tem semelhanças com a Doutrina Kardecista?

Sim e não, a semelhança é que existe uma página e um “mini estudo” ou uma interpretação sobre a página lida. Depois de aberta a mesa, fazemos a fluidificação da água que servirá como remédio para os que estão ali no espaço da Tenda, todos tomam um cálice da água fluidificada com a intenção de curar algum mal que o aflige, seja ele físico, de ordem emocional ou espiritual. Passa-se pela mesa os papeis para irradiação á distância, nomes, endereços e necessidades das pessoas que não puderam estar presente. Os médiuns incorporados à mesa, juntos aos espíritos desencarnados de luz, que auxilam no trabalho, fazem uma espécie de ronda espiritual, chegando até o lugar, visitando aquela pessoa cujo nome encontra-se no papel. Depois, os assistentes, que estão naquele momento na tenda, passam pela mesa, geralmente sentam de quatro em quatro e havendo a necessidade, passa-se individualmente aquele(a) que precisa, por alguma orientação, sentar sozinho(a). Nesse momento, pode acontecer orientações aos espíritos desencarnados que chegam até a mesa. Faz-se uma espécie de doutrinação, alertando aquele espírito sofredor que ele já não pertence mais a esse mundo, ou que ele deve deixar de perturbar determinada pessoa, de estar ao lado dela, implicando no seu processo de evolução em outro espaço,  mas muitas outras coisas acontecem durante essa sessão, como, por exemplo a psicografia de mensagens, cada dia é de um jeito. 

Dentro da Doutrina Kardecista, essa sessão é uma sessão fechada para os assistentes. No Espaço da Umbanda, não. Nem todos os terreiros, centros ou tendas umbandista desenvolvem esse tipo de sessão, que também está no rol das sessões que permitem a evolução do médium e de sua entidade. O médium que for convocado para participar da mesa deve ter feito, no dia anterior, um resguardo,  que seria cuidar do corpo e da sua parte emocional,  não ingerindo carne vermelha ou bebida alcoólica,ter cultivado bons pensamentos e não ter passados por momentos extremos de estresse,   se o médium sentir que não está preparado para fazer parte desse trabalho deve sinalizar ao dirigente da casa. 

Para que fica mais esclarecido, existe uma confusão  em relação a Mesa Branca e o Espiritismo e isso talvez seja motivado pela semelhança que existe em alguns pontos, como por exemplo a comunicação mediúnica com os espíritos e a crença na reencarnação. O Espiritismo é uma doutrina científica e filosófica codificada em 1857 por Allan Kardec.

Por que consideramos a sessão de Mesa como uma sessão de Descarrego?

Porque, nesse momento, há a permissão de espíritos desencarnados, que muitas vezes veem acompanhando o consulente, chegarem à mesa através de um médium e receber as orientações necessárias para continuar sua caminhada espiritual, é como se esse espirito recebesse um acalando, um afago, um alento, pois é dito para ele que ele é importante e que deve seguir o seu caminho sem importunar a vida de quem permitiu a sua chegada até aquele ambiente de amor e paz.  Além disso, essa sessão serve para reequilibrar a energia e fazer a limpeza astral de todos que dividem o ambiente, tantos encarnados e desencarnados. A sessão de mesa é para aliviar todas as tensões físicas, emocionais e espirituais, é um momento de descarregar as energias “ruins”, “pesadas” que foram acumuladas durante dias e que precisam ser retiradas, transmutadas e renovadas. 

 

A foto do post não é da nossa Tenda.

Foi retirada de outra página, para vê-la,  clique aqui

 

 

A tronqueira

Texto retirado da página do facebook: Em Defesa da Umbanda

Hoje voltamos a falar dos elementos da Umbanda, e o assunto abordado será sobre a Tronqueira.

Um assunto que gera muitas discussões e dúvidas, pois está diretamente ligado aos Exús e Pomba-giras, os quais têm seu trabalho muitas vezes mal interpretado.

A Tronqueira exerce diversas funções dentro de um terreiro, mas com o principal objetivo de proteção a ele.

Ela é um ponto de força firmado no terreiro, ou seja, toda essa energia que emana dela é usada para os trabalhos dos Guardiões e Guardiãs, os quais a utilizam para se reenergizar para os trabalhos de limpeza ou proteção da casa.

Essa energia tem também como finalidade ser a fonte que alimenta um campo de força energético que se mantêm no astral, numa vasta área em torno do terreiro (equivalente a mais ou menos um quarteirão), área que é protegida pelos Exús e Pomba-giras (Guardiões e Guardiãs).

Sendo essa energia que os Exús e Pomba-giras manipulam mais densa (mais próxima a nossa), a tronqueira é utilizada como um pára-raios, evitando que energias deletérias entrem na casa para prejudicar o andamento dos trabalhos.

Nesta mesma função a tronqueira serve como uma área de retenção, mantendo ali alguns dos espíritos trevosos que acompanham os consulentes até o terreiro, e até mesmo algum destes seres que foram capturados durante os ataques espirituais que a casa sofre perante os trabalhos.

Onde estes seres que ficaram retidos durante os trabalhos, serão socorridos, esclarecidos e encaminhados para os tribunais da justiça divina.

Diante desta realidade, salientamos a importância da saudação a tronqueira do terreiro, a qual deve ser feita com muito respeito e fé, igualando-se ao congá, pois com esta atitude se contribui energeticamente para a realização dos trabalhos que necessitam da energia que provêm da tronqueira.

Quando se reverência a tronqueira (ao entrar e ao sair do terreiro), deve-se pedir licença e proteção aos trabalhos, pois ali é o centro de comando dos Guardiões da casa, os quais têm papel fundamental para todo e qualquer andamento de trabalho dentro de um terreiro.

Exú é toda a movimentação de forças que sustenta nossa existência. Exú é FORÇA, é PROTEÇÃO, é LUZ.

Nossos rituais

Por: Sid Soares

Se você está lendo isso se prepare, pois seu dia será marcado por rituais, a vida é feita deles, do simples fato de lavar o rosto, escovar os dentes, ao almoço de domingo em família ou o ato de queimar fotos e lembranças que nos trazem más recordações com a intenção de sepultá-las. Para isso nos valemos de tudo, fogo, objetos, e principalmente amigos, companheiros de caminhada que dividem conosco os pequenos atos sagrados de nossa intimidade.

Momentos bons e ruins devem ser marcados por rituais, isso fala a nossa alma e dão sentido e razão aos nossos sentimentos, passamos a vê-los de forma mais prática, concreta e viva, assim como aquilo que queremos pôr fora, seja bom ou ruim. Precisamos de um amigo para falar de nossas conquistas e vitórias, e também de nossas derrotas assim temos convicção de que se foi bom alguém irá sorrir conosco, ou o contrário e que depois é seguir em frente. Os ritos nos acompanham pela vida, em casa, na escola, no trabalho e nos templos.

Os ritos e rituais são muito importantes não só dentro da Umbanda como em outras crenças, tanto que o próprio Cristo viveu o batismo pelas mãos da Voz do Deserto e então se encheu do Espírito Santo, era chegada a hora do Seu testemunho.

Ainda que se diga que o mundo precisa menos de religião e de mais espiritualidade, seja qual for a religião, há no seu cerne a máxima de fazer o bem, de ser útil e do amor, e numa época onde tudo toma proporções maiores do que devem ter, onde o que norteia a maioria das pessoas é o EU e não o NÓS, a religião e seus ritos ainda são o prumo que nos auxilia o equilíbrio!

Mas todos os dias é necessário reforçar com as próprias forças essa caminhada, a busca pela ligação com o Mais Alto se dá a todo instante, na busca do autoconhecimento, na conexão com as forças da natureza que encerram os poderes divinos, no trabalho digno e acima de tudo na manutenção com nossa sagrada ligação com os mentores, com nosso anjo protetor.

Na humildade de saber que é preciso de uma outra mão por mais sábios e fortes que parecemos ser, há sempre alguém que nos conduz por águas tranquilas ao encontro com o Pai, renascendo de nós mesmos para os céus e se tornando parte dele, como João Batista fez com o Cristo de Deus.

Ritualize suas vivências, suas experiências ainda que pareçam simples. Eles ajudam a encerrar e iniciar os ciclos e libertam nosso coração, nos dão a possibilidade de recomeço, liberando nossas almas de amarras e criam laços com o Universo, assim como o vento que seja qual for o tempo ou direção, segue.

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Pai de Santo

Ser um Babalorixá é ser como Ivo de Carvalho, nosso Pai no Santo como ele gosta de dizer. 

Pai de Santo é a tradução literal de Babalorixá.

 

 

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SER PAI DE SANTO*
(autor desconhecido)

Ser Pai de Santo é viver mil vezes em apenas uma vida, é lutar por causas perdidas, é desconhecer a palavra recompensa apesar dos seus atos.

Ser Pai de Santo é caminhar na dúvida cheio de certezas, é correr atrás das nuvens num dia de sol e alcançar o sol num dia de chuva.

Ser Pai de Santo é chorar de alegria e muitas vezes sorrir com tristeza, é cancelar sonhos em prol de terceiros, é acreditar quando ninguém mais acredita, é esperar quando ninguém mais espera.

Ser Pai de Santo é identificar um sorriso triste em uma lágrima falsa, é ser enganado e sempre dar mais uma chance, é cair no fundo do poço e emergir sem ajuda.

Ser Pai de Santo é se perder em palavras e depois perceber que se encontrou nelas, é distribuir emoções que nem sempre são captadas.

Ser Pai de Santo é construir castelos na areia, vê-los desmoronados pelas águas e ainda assim construir outros.

Ser Pai de Santo é tentar recuperar o irrecuperável, é entender o que ninguém mais conseguiu desvendar.

Ser Pai de Santo é estender a mão a quem ainda não pediu, é doar o que ainda não foi solicitado.

Ser Pai de Santo é ter a arrogância de viver apesar dos dissabores, das desilusões, das traições e das decepções.

Ser Pai de Santo é ser pai dos filhos dos outros e muitas vezes não ser dos seus, é amar igualmente e nem sempre ser amado.

Ser Pai de Santo é ter confiança no amanhã e aceitação pelo ontem, é desbravar caminhos difíceis em instantes inoportunos e fincar a bandeira da conquista em meio à derrota.

Ser Pai de Santo é entender as fases da lua por ter suas própria fases. É ser “nova” quando o coração está a espera de filhos de Santo, ser “crescente” quando estes filhos batem a sua porta, ser “cheia” quando já não cabe tantos filhos no Ilê e “minguante” quando muitos desses filhos vão embora cortando seu coração ao meio com injurias e falsas palavras.

Ser Pai de Santo é voltar no tempo todos os dias e viver por poucos instantes coisas que nunca ficarão esquecidas.

Ser Pai de Santo é cicatrizar feridas de outros e inúmeras vezes deixar as suas próprias feridas sangrando e doendo.

Ser Pai de Santo é chorar calado as dores de todo mundo e em apenas um segundo estar sorrindo.

Ser Pai de Santo é subir degraus e se os tiver que descer não precisar de ajuda, é tropeçar, cair e voltar a andar sozinho.

Ser Pai de Santo é acima de tudo um estado de espírito, é ter dentro de si um grande tesouro escondido chamado FÉ e ainda assim dividi-lo com o mundo, mesmo que o mundo não mereça, sem esperar nada em troca!

* Pai de Santo neste texto se refere a todos os Sacerdotes e Sacerdotisas dos cultos e religiões afro-brasileiras e de matriz africana.