Exu não é Diabo


A partir de algumas leituras sobre Exu, resolvi escrever, tendo como base principal da colocações o artigo de Núbia Rodrigues e Carlos Caroso, ambos da Universidade Federal da Bahia, “Exu na tradição terapêutica religiosa afro-btrasileira”. Esse artigo faz parte do livro: Face da tradição afro-brasileira, organizado por Carlos Caroso e Jeferson Bacelar. 

Exu não é Diabo

A associação que muitas religiões fazem de Exu com o Diabo é completamente errônea e improcedente dentro da Umbanda. Existe uma vasta e reveladora biografia sobre Exu, mas cada terreiro, templo, centro, choupana, sentem, entendem e cultuam o Exu a sua maneira. O que deve ser esclarecido é: que para os umbandistas Exu é entidade e não Orixá. Entendendo como entidade espíritos que já tiveram encarnados nesse plano terrestre. Houve, dentro do culto umbandista, uma ressignificação da figura do Exu.

No Candomblé, seu status é de orixá mensageiro, como na África, estabelecendo o contato dos homens com os outros orixás. Esta função está bem estabelecida no jogo oracular dos Búzios, onde é Exu quem leva as perguntas e traz as respostas, traduzindo-as, sendo às vezes, (como já foi dito) ele próprio quem as responde.  Mesmo no oráculo de Ifá (opelê-ifá), do qual o jogo de búzios é uma variante mais simples, Exu aparece como o orixá que revela os segredos da adivinhação para Ifá e posteriormente o revela também aos homens, pois Exu é o princípio comunicador de tudo e de todos. Exu é considerado um Orixá, um caráter de divindade, que segundo Pierre Verger:

 “É a figura mais controvertida dos cultos afro-brasileiros e também a mais conhecida. Há, antes de mais nada, a discussão se Exu é um Orixá ou apenas uma Entidade diferente, que ficaria entre a classificação de Orixá e Ser Humano. Sem dúvida, ele trafega tanto pelo mundo material (ayé), onde habitam os seres humanos e todas as figuras vivas que conhecemos, como pela região do sobrenatural (orum), onde trafegam Orixás, Entidades afins e as Almas dos mortos (eguns).”

Por se tratar de uma entidade que é pensada como ambivalente, muitas interpretações são apresentadas sobre ela, tanto de cunho religioso como antropológico. Geralmente ele aparece dentro da concepção cristã do Diabo, portanto negativa, vinculada a propagadora do mal e promotora de trabalho de magias que traz ganho financeiro para que o realiza. Segundo Núbia Rodrigues e Carlos Caroso, citando Valente (1977) e Trindade (1985), no seu artigo intitulado, Exu na tradição terapêutica religiosa afro-brasileira:

“Exu é, na verdade, o Mercúrio africano, o intermediário necessário entre o homem e o sobrenatural, o intérprete que conhece ao mesmo tempo a língua dos mortais e a dos Orixás. O princípio dinâmico da existência cósmica e humana é simbolizado nas religiões ioruba e fon, pela divindade Exu. Ele é um princípio, transporta o axé, mantendo a intercomunicação entre diferentes domínios do universo. A força vital é única e várias são as suas manifestações, transmitidas através de Exu aos seres e domínios do universo. […] No Candomblé, Exu é o resultado de um processo onde se perderam os quadros sociais de referência, em decorrência da desagregação sociocultural do escravo africano. Houve, portanto, o deslocamento de símbolos provenientes de uma estrutura lógica de pensamento para adquirir novos sentidos fornecidos por outro contexto de relações estruturais”  

O significado original africano diz que Exu é como o deus que participa de todos os domínios da existência cósmica, mas para a Umbanda ele não só domina essa existência como está muito perto do mundo em que vivemos, assumindo um papel muito mais dinâmico e ambivalente, posto que, pode ser sentido como positivo ou negativo. Embora haja essa colocação, nós da Tenda Espírita Pai Mané de Aruanda percebemos, sentimos e vivenciamos sempre o lado positivo da entidade, estabelecendo uma relação de troca onde as obrigações são negociadas – Exu ajuda o consulente e o mesmo retribui a ajuda concedida.

Muitas atribuições de Exu passaram do candomblé para a umbanda, onde seus “pontos” são firmados” nas entradas dos terreiros e também dos barracões, os exus de umbanda passaram a ter características específicas de acordo com o terreiro (mas sempre como egún), a história de vida de seus dirigentes, e o sincretismo praticado em cada casa. Na umbanda atual, os Exus seriam entidades em desenvolvimento espiritual e moral.

Outras doutrinas veem Exu como uma entidade que deve ser evitada porque não faz parte do campo sagrado, só enxergam nela o aspecto negativo que precisa ser doutrinado, entendo que tal entidade, depois que desencarnaram, não aceitaram sua nova condição. Exu pode transitar pelos dois mundos, os dos vivos e os dos mortos, ele rompe essa fronteira, ratificando o seu papel de mensageiro. Sobre isso leiam a seguinte citação:

“Segundo Parrinder, o deus ioruba Exu, chamado Legba pelos Emé, ‘não desfruta de uma posição do mesmo nível que os deuses (africanos); ele não tem nem clero e nem centro de aprendizado para fiéis. Na realidade se associa a toda divindade como intermediário entre elas e os homens’. Esta característica diferencial de Exu se manifesta no seio da própria linguagem mitológica ioruba, pois o deus não figura na lista dos orixás que nascem do ventre de Iemanjá. O papel do intermediário entre os deuses e os homens foi suficientemente estudado por Herskovits, que associa exu ao culto de Ifá (o destino) mostrando sua importância enquanto mensageiro divino […] Exu aparece então como tradutor das palavras divinas, por isso ele introduz o acaso na ordem do mundo; enquanto intérprete das mensagens divinas; ele detém um poder de avaliação, que lhe permite alterar o destino dos homens. ”

Para terminar trago o conceito de Exu do nosso dirigente Ivo de Carvalho. Ele faz a seguinte analogia: “durante construção de um edifício são necessários vários trabalhadores que ocupam diversos cargos, desde engenheiro da obra até o peão, passando pelo mestre de obras, pedreiro, etc., pois então o Exu é aquele que permanece até o final da obra e limpa toda a sujeira que ficou; é a mão de obra que realiza a limpeza bruta, a que dá os retoques finais para que outros possam ocupar aquele lugar que foi higienizado e limpo por ele.”

Os espaços sagrados de Exu são os lugares públicos, as entradas das cidades, das casas, das vilas, feiras, entradas de templos, além dos templos erigidos em sua homenagem. São nestes lugares, que seus assentamentos são colocados; característica esta que foi repassada para algumas correntes de pensamento umbandista.

Laroiê!

Exu Mojubá!

 

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